Karma: The Dark World - Análise
Terror sublime


André Ramos
01/04/25, 20:28
Atualizado a
Terror é outra das minhas paixões, este jogo faz-me querer continuar a amar o género
Todos nós temos aquele guilty pleasure que gostamos de desfrutar de vez em quando. Para mim, é conteúdo de terror. Admito que, quando era mais novo, nunca foi algo que me puxasse, mas, nos dias atuais, é uma paixão minha. Karma: The Dark World é um jogo desenvolvido pela Pollard Studio LLC e publicado pela Wired Productions e Gamera Games. Nunca tinha jogado nenhum título destas empresas, mas, de agora em diante, irei estar mais atento.
Karma: The Dark World situa-se em 1984, numa Alemanha distópica, controlada por uma empresa chamada Leviathan Corporation. E, à primeira vista, a jogabilidade e a história não se distinguem muito de certos jogos que temos disponíveis no dia de hoje. Contudo, de cedo, com o desenrolar da narrativa, Karma revela-se como algo sublime e aterrador.
Despertamos num quarto de hospital, no corpo de um jovem que aparenta não ser um ser humano normal. O seu corpo tem modificações biotecnológicas, um pouco ao estilo de H.R. Giger — com tubos anexados ao corpo, por exemplo. Ao vaguearmos pelos corredores, apercebemo-nos de que não estamos bem num hospital, mas sim numa espécie de laboratório. Somos presos a uma cadeira por um homem, que nos induz numa espécie de transe que nos leva a explorar as memórias de um jovem chamado Daniel McGovern, que trabalha para a Leviathan Company. A partir desse momento, tomamos a sua pele ao longo dos eventos que decorrem na história.
A narrativa baseia-se na exploração das memórias das várias pessoas que encontramos ao longo do jogo, quer sejam boas, más, ou... Bem, é melhor verem por vocês mesmos. Karma: The Dark World não tem receio em abordar temas pesados e desconfortáveis. Através dessas memórias, somos confrontados com a realidade de famílias impactadas pelo desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal, de abusos sexuais, tráfico humano, entre outros. Estes assuntos são explorados de forma séria e reforçam o peso emocional da narrativa, tornando a experiência mais intensa e memorável.
Não são precisas imensas mecânicas ou serem demasiado complexas para a jogabilidade ser boa
Muitos descreverão a jogabilidade de Karma como sendo um simulador de caminhar. E entendo, mas, dependendo do contexto, nem sempre são precisas mecânicas extremamente complexas para se contar uma boa história,ou para reter a atenção do jogador.
Neste título, a forma como interagimos com o mundo e os objetos que nele habitam é muito semelhante ao que vemos na franquia Amnesia — por exemplo, temos de agarrar nas portas e abri-las manualmente, o mesmo com gavetas. Para além disso, existem alguns puzzles que têm de ser resolvidos, secções de fuga ou então temos de arranjar forma de sair de um time loop. Por outro lado, senti que o sprint é extremamente lento, o que, em secções de fuga, é um pouco estranho e, sim, por vezes os controlos têm um pouco de jankiness quando existem vários itens para interagir perto uns dos outros.
Ao longo do jogo, irão encontrar uns brinquedos com puzzles para desbloquearem colecionáveis. Mas atenção que só têm uma tentativa.
Resumindo, achei que a gameplay, apesar de simples, consegue manter-nos imersos e é apelativa, que, no fundo, é o mais importante.
Não estava à espera de me sentir tão emocionalmente conectado com este jogo
Visualmente, é um jogo impressionante, não por ter um mundo aberto lindo ou por apresentar aqueles aspetos de fantasia épicos, mas sim por retratar locais reais de forma credível. Os modelos das personagens são extremamente realistas, animações inclusive.
Sim, temos cenários próprios de um jogo de terror: quartos escuros, laboratórios cobertos de sangue e outras substâncias, corpos espalhados e em vários estados de decomposição, inimigos visualmente impactantes, etc. Mas também temos cenários de outro estilo estético lindíssimos. Temos diálogos e passagens que nos conectam com as personagens a um nível pessoal. Temos cinemáticas com uma estética bem diferente e cinematograficamente vislumbrantes. Certas partes mudam completamente o género do jogo — de uma forma linda.
A banda sonora é incrível, quase como algo saído da época Romântica e Neo-Clássica. Posso afirmar que poderiam existir concertos apenas da soundtrack de Karma e que esgotaria um anfiteatro.
O voice acting é fantástico e só amplifica toda a experiência que o jogo oferece.
Não estava, de todo, à espera que Karma: The Dark World tomasse o rumo que tomou e, por isso, fico eternamente grato por ter podido vivenciar este jogo em todo o seu terror e — como já devo ter repetido isto milhares de vezes — beleza, apesar de não ter uma história longa.
Não quero alongar-me muito neste assunto, porque sinto que toda a gente devia dar uma chance a este jogo, mesmo que terror não seja a vossa praia, prometo que não se vão arrepender.
Como não posso encerrar esta análise sem um parecer acerca de como o jogo roda, está extremamente bem otimizado. Temos ao nosso dispor várias opções para podermos usufruir deste título da melhor forma, dependendo da configuração do vosso computador. Podem optar por usar anti-aliasing da NVidia, AMD ou Intel. Podem escolher usar, ou não, frame generation. Mas, mesmo com ela desativada, consegui atingir 180 fps estáveis com todas as opções gráficas no máximo (RTX 3080, Ryzen 9 3900X e 32Gb). Apenas em algumas secções de carregamento entre áreas é que notei um stutter curto, mas nada de grave.
Karma: The Dark World poderia ou não ter uma sequela, e o seu final é maravilhoso. Por isso, mesmo que não tenha, sinto-me satisfeito com ele.
Prós:
Terror eficaz, equilibrando tensão, emoção e beleza
Direção artística única e envolvente
Banda sonora incrível e memorável
Voice acting de alta qualidade
Jogabilidade simples mas imersiva
Puzzles interessantes e bem integrados
Contras:
Sprint demasiado lento
Pequenos problemas na interação com objetos
Alguns soluços no carregamento de áreas
